
Simplesmente amor
Inglaterra, 2003
Direção: Richard Curtis
Roteiro: Richard Curtis
Elenco: Hugh Grant, Emma Thompson, Liam Neeson, Colin Firth, Keira Knightley e Laura Linney
Sem dúvida, um dos gêneros que mais tem sido explorado no cinema é aquele que veio a ser chamado pelo estranho nome de “comédia romântica”. São aqueles suaves filmes de amor entrecortados por piadas e seqüências divertidas, com finais felizes e pouquíssimo espaço para conteúdos dramáticos e trágicos. São os filmes “água-com-açúcar”, que em geral marcam mais por serem potenciais “blockbusters” do que pela história narrada ou pelas atuações.
O apelido “água-com-açúcar” traduz bem o estilo desses filmes: não há sentimentos amargos como uma dose de whisky; não são difíceis de digerir como um copo de tequila; não são clássicos ou intelectuais como um vinho francês; também não têm a ação da cafeína de uma Coca-Cola, e nem o suspense ou o terror de uma tubaína. Eles são estéreis; em geral, você sai da sessão de cinema quase igual a quando entrou.
Apesar de tudo isso, o que torna possível a essas produções serem interessantes e atraentes é a aposta presente em todos os filmes desse tipo: assistir a uma história em que o amor pode ser vivido num sem-fim de alegrias e, por isso, celebrado como uma grande dádiva. Ainda que a narrativa reserve momentos para a dor, é o amor que prevalece e supera tudo, mantendo um tom otimista que facilmente escapa à realidade.
Por essas características, não me parece atrevimento muito grande comparar as comédias românticas aos contos de fadas, que também recriam com múltiplas cores e fantasias alguns temas humanos bastante sérios. As comédias românticas, assim, parecem usar o elemento maravilhoso dos contos de fadas em histórias em que o amor será, ele próprio, maravilhoso. Ou você acredita que magnatas se apaixonam por garotas de programa todo dia, como em “Uma linda mulher”? Ou que uma mulher pode se apaixonar por um homem apenas ouvindo-o num programa de rádio, como em “Sintonia de amor”?
Pois é. As comédias românticas nos seduzem por nos narrar histórias em que o amor pode ser fantasticamente feliz e bem-aventurado. Elas nos gratificam pela criação da ilusão de que o amor gera mais oportunidades de prazer e felicidade do que de sofrimento, o que não é necessariamente verdade. No auge de nossas dores neuróticas de tentarmos viver felizes para sempre no amor (o que encerra uma grande onipotência), acabamos convenientemente nos esquecendo desse fato.
O filme de que falarei neste texto é um dos de que mais gosto no gênero: “Simplesmente amor”, de Richard Curtis. Trata-se, na verdade, de uma miscelânea de várias histórias de amor que se cruzam em vários momentos, mas que se mantêm independentes umas das outras. A variedade de situações e emoções que envolvem os personagens do filme surpreendentemente proporciona um resultado maduro à tese do mesmo, que é a de que o amor está em toda parte e se apresenta de várias formas, gerando conflitos, dores, risos e alegrias. Por ser multifacetado, o filme transita com tranqüilidade entre o riso burlesco e o drama sublime, às vezes rapidamente, não havendo um personagem específico que sustente a trama geral. Na verdade, tudo gravita em torno do amor e dos diversos outros sentimentos suscitados por ele, e é essa escolha que torna o filme, na minha modesta opinião, tão apreciável. Vamos a “Simplesmente amor”, então, ainda que o amor não seja nada simples.
O amor está em todo lugar
A abertura do filme expõe logo sua tese de que o amor está em todo lugar, sem destaques nas manchetes de jornais, mas em todo e qualquer vínculo: casais, pais e filhos, velhos amigos etc. Esse é o único momento do filme que é narrado, e as imagens mostradas são cenas reais, flagrantes de reencontros de pessoas queridas na chegada de um aeroporto.
Há dois elementos interessantes, logo de entrada. O narrador nos lembra que os telefonemas feitos pelos passageiros dos aviões que atingiram as Torres Gêmeas no 11 de setembro não foram mensagens de ódio ou vingança, mas de amor. Ele fala isso como argumento de que o mundo não estaria dominado “pelo ódio e pela ambição”, ou seja, que mesmo nos momentos de demonstração da destrutividade da espécie humana o amor pode surgir. Diante da morte iminente, não recorremos a posses ou sentimentos daninhos. Na nossa hora final o balanço da vida é com tudo aquilo que deu significado para a própria vida.
O outro aspecto comovente na abertura do filme são as cenas das pessoas se abraçando, o encontro entre aqueles que chegam e os que aguardam a sua chegada. Nesse prólogo, não há uma cena sequer em que um abraço não apareça. O abraço é muito mais do que uma etiqueta, uma convenção social. Há especulações que dão conta de que o abraço teria surgido em tempos remotos como uma forma discreta de verificar se a pessoa de quem se está próximo está armada. Ao que me parece, essa tese pode até explicar uma suposta utilidade original do abraço, mas não explica por que o abraço seria até hoje utilizado, e usado como uma demonstração de afeto. No contexto de nossos amores e do filme, o abraço é a forma mais simples de dois corações estarem próximos. Isso soa piegas, mas não é se levarmos em conta que foi nos braços de um ser capaz de nutrir, proteger e satisfazer que aprendemos a ver o mundo e a nós mesmos, e portanto a amar. Falo, é claro, do colo da mãe nos primórdios da vida. Se foi no tipo original de abraço, que é o embalo junto ao peito da mãe, que descobrimos o amor e a confiança de que somos amados por alguém, nada mais justo que o abraço para ilustrar um filme dedicado a todo tipo de amor.
Após essa abertura, o filme corre apressado por todos os personagens que acompanhamos, situando o espectador no contexto de cada um. No geral, muitos deles se conhecem e dividem alguns espaços em comum, mas as histórias são separadas. A trama se passa em Londres, e envolve desde a paixão de um menino de 11 anos pela garota mais “cool” da escola até o primeiro-ministro inglês. Embora a narrativa conte com uma edição que nos apresenta todas as sub-tramas entrecruzadas, opto aqui, em nome da clareza, por comentar e analisar as histórias separadamente.
Antes, porém, façamos uma pausa para falar sobre o personagem principal: o amor.
O amor
A psicanálise interpreta, analisa e explica uma série de processos mentais no afã de perscrutar a alma humana e operar mudanças, nas situações de tratamento, através da aplicação de conceitos e fundamentos da psicologia profunda que aquela veio a se tornar. Isso não deve surpreender ninguém. Vários sentimentos são e foram analisados, tais como a inveja, o ciúme, a melancolia, o desamparo, a solidão etc. O amor não fica de fora. Mas, ao fazer isso em nome da cientificidade e da técnica, o psicanalista retira das experiências emocionais amorosas toda a carga romântica que gostamos de ver nelas. É como explicar uma piada: ela perde a graça e o propósito de fazer rir.
Quer ver só? Freud, “o homem sem lágrimas”, como disse Peter Gay, um de seus biógrafos, legou uma série de artigos em que fala do amor. Obviamente, não do amor romântico, mas do amor enquanto força motriz para uma série de fenômenos mentais.
Por exemplo, em “Psicologia de grupo e a análise do ego”, Freud escreve: “Em determinada classe de casos, estar amando nada mais é que uma catexia de objeto por parte dos instintos sexuais com vistas a uma satisfação diretamente sexual”. Aqui ele fala da paixão, uma situação em que os impulsos sexuais expiram tão-logo seus objetivos sejam alcançados.
(“Catexia” são os investimentos que um indivíduo dirige a um objeto para se ligar a ele. Para tudo aquilo em que um sujeito se dedica, sua mente organiza seus impulsos apontando-os para algum objetivo que, supostamente, realizará tal desejo. Se um homem se apaixona por uma mulher, supõe-se que seus instintos sexuais o levem a procurá-la. Se eu escrevo este texto e pretendo chegar com ele até o fim, é porque minha mente encontra algum tipo de satisfação associada a tal atividade.)
Mas então como acontece o amor “afetuoso”, em que a pessoa ama outra mesmo nos momentos “desapaixonados” em que os impulsos já estão satisfeitos? Ou, dito de outra forma, se a paixão passa rapidamente porque possui o prazo de validade breve dos impulsos sexuais, o que faz o amor durar, em alguns casos, uma vida inteira?
A resposta do Dr. Freud tem por base o inconsciente. Quando a criança atinge a idade de 5 anos e resolve satisfatoriamente a conflitiva edípica, ela já escolheu o genitor do sexo oposto como objeto de desejos e o genitor do mesmo sexo como objeto de rivalidade e identificação. Uma grande parte dos instintos sexuais dirigir-se-á para outras pessoas, que não estão proibidas pelas “leis do incesto”. Outra parte, porém, continuará presente na relação com os pais, mas de forma transformada: eles se transformam em afetuosidade.
Quando uma pessoa ama, ela não se satisfaz apenas sexualmente. Se assim o fosse, os casamentos, quando chegassem a ocorrer, durariam só até a lua-de-mel. O amor é maior que a paixão porque ele pressupõe a satisfação de outros impulsos também, aqueles mesmos que foram reprimidos anteriormente e que tinham virado “afetuosidade”. Quando amamos, mantemos relacionamentos não só pela premência dos desejos sexuais, mas por todos aqueles sentimentos “celestiais” de deslumbramento, encantamento e idealização gerados pelos afetos. Assim, compõem o cenário de uma vida conjugal feliz muito mais do que as óbvias gratificações sexuais, mas um “fazer juntos” que satisfaça outros desejos, sobretudo afetivos, mas nem por isso menos libidinais.
Há algo sempre profundo e sempre significativo que a pessoa amada de alguma forma consegue acessar. São os afetos, que, como mostrou Freud, no final das contas são todos feitos de libido. O amor é sexo e afeto.
Em “Simplesmente amor”, a história se passa em dezembro, e acompanhamos a trama numa espécie de contagem regressiva para o Natal. Os cenários e as situações durante todo o tempo mostram a espera pelo Natal.
O Natal acaba sendo um tema próximo do amor, dentro do que falamos até aqui. Afinal, o que move o Natal são os laços afetivos e amorosos, idealizados e materializados na figura de Cristo. Mas há mais coisas aí. No Natal, os presentes e as demonstrações de calor humano reafirmam que há sempre alguém que lembra de nós, seja esse alguém um amigo, um parente, o menino Jesus ou mesmo o Papai Noel, o que torna a data muito conveniente para uma fantasia infantil que qualquer adulto carrega dentro de si: não importa o quanto o mundo seja complicado e tenebroso; alguém virá para nos amar.
A equação simbólica entre Natal e amor fica evidente na adaptação da música “Love is all around” para “Christmas is all around”, feita por um dos personagens do filme e que aparece em vários momentos da trama. Além disso, há várias falas dos personagens que reafirmam o Natal como um momento de dizer o que se sente, fazer declarações de amor e procurar a presença dos amores verdadeiros. É uma premissa açucarada, é verdade. Mas quem irá dizer que há presente melhor do que o amor?
O amor como língua universal
A primeira história que analiso é a de Jamie e Aurélia. Jamie é um escritor inglês que, logo no começo do filme, descobre que sua companheira o traía com seu próprio irmão. Desgostoso, ele decide se retirar da Inglaterra por algumas semanas numa temporada em sua casa de campo na França, num lugar bucólico e aprazível. Tal medida tem por motivo aparente o trabalho de Jamie: ele procura paz para escrever seu próximo livro.
Podemos supor um motivo oculto: elaborar a dor. É comum haver uma retirada do mundo diante de sofrimentos significativos e, em alguns casos, desestruturantes. Nós “damos um tempo”, como é comum dizer em linguagem cotidiana. Em momentos de crises, recorremos a uma reestruturação interna que pode ou não ser satisfatória.
Mas a inspiração que ele procura não virá da calmaria do campo, mas de uma musa. Jamie contrata uma empregada, a portuguesa Aurélia. O escritor dá caronas para a moça no fim de seu expediente, para levá-la até a cidade. Os períodos que passam juntos são constrangedores e o diálogo se mostra impossível. Vemos que um fala com o outro sem haver qualquer comunicação. Jamie não fala português, e Aurélia não fala inglês. Falam sobre biscoitos e o dia-a-dia como se tudo o que é dito fosse compreendido pelo outro.
Mas algo curioso acontece: as falas de cada um mostram que há um entendimento latente na relação dos dois. Um responde ao outro sem se dar conta de que há uma conversa escondida ali. Pelas legendas, vemos que a conversa dos dois possui lógica e coerência, apesar da falta do mútuo entendimento.
A poesia dessa história é a de que o amor, e não a razão, seria o veículo através do qual transitam os afetos, humores e, se possível, idéias.
A humanidade possui um mito para explicar a diversidade de línguas no mundo. É a Torre de Babel, erguida pelos homens com a pretensão de atingir os céus. Até então, haveria apenas uma língua. Como punição pela ousadia do homem e também como forma de interromper a construção, Deus teria feito com que todos os homens falassem uma língua diferente. Criou-se um mal entendido universal e inesgotável, e as línguas passaram a separar os povos.
Se a linguagem tem por objetivo viabilizar a comunicação, temos então que ela é um instrumento. O mito dá conta da complicação do instrumento, mas não da deformação do conteúdo. A humanidade não ergueu a Torre de Babel porque ninguém se entendia, e não porque os construtores teriam mudado de idéia ou se desentendido por causa de seus métodos. Ou seja, falamos de forma diferente, mas dentro dos mesmos temas.
O mito nos dá a indicação de uma linguagem universal, que o homem já teve e da qual acabou se esquecendo. De fato essa linguagem existe. Não é bem uma linguagem, mas com certeza é uma comunicação.
No começo da vida de cada ser humano não há palavras. A simbolização, que é o processo que oportuniza o surgimento da palavra, estrutura-se e evolui gradativamente, e culmina com o pleno uso da linguagem e do pensamento. Ou seja, lançar mão da linguagem requer um aparato mental desenvolvido e sofisticado. O bebê ainda não goza desses recursos, mas se comunica com a mãe e o mundo, só que num plano pré-verbal. Há um relacionamento empático e sensual, ou seja, as trocas iniciais que constituem o mundo interno do bebê vêm de introjeções, projeções e percepções.
Esses processos ainda continuam ativos por toda a vida adulta. Note que recorremos a essas formas de comunicação no relacionamento com as pessoas o tempo todo: provocamos sentimentos, atiçamos vontades, criamos clima, abusamos de perfumes, atraímos olhares, experimentamos gostos, trocamos toques etc.
Jamie e Aurélia se apaixonam discretamente, sem entender as palavras que dizem. Como é num nível pré-verbal (e, portanto, primitivo) que o entendimento dos dois acontece, os sentimentos suscitados são inconscientes. Eles não se percebem apaixonados até um incidente.
Jamie escrevia seu livro numa varanda próxima a um lago quando Aurélia se aproximou e, descuidadamente, retirou a caneca que servia de peso sobre a pilha de inúmeras páginas datilografadas, fazendo-as voar para a água. Desesperada, pula no lago após tirar suas roupas, ficando só com as peças íntimas. Até aqui, Aurélia escondia sua beleza por trás de blusas pesadas. De repente, revela um corpo de modelo. Jamie a observa, e o zoom da câmera para o detalhe de sua tatuagem nas costas indica o quanto o escritor fora fisgado pela moça.
Como sugeri, a comunicação entre os dois se deu em um nível muito primitivo, em que olhares e aromas enfeitiçavam e substituíam o entendimento pelas palavras. O vento que leva embora páginas de textos digitados mostra, metaforicamente, o quão pouco o verbal tomava lugar na aproximação dos dois: a letra podia se perder que mesmo assim eles se entendiam.
Mas há um problema: se por um lado o apaixonamento pode ocorrer sem palavras, um relacionamento verdadeiro não. Não há declarações de amor e pedidos de casamento sem elas. Com isso, Jamie e Aurélia se separam com a chegada do Natal. Ela volta para Portugal e ele, para a Inglaterra.
Eles chegam a trocar um beijo na despedida, mas não se entendem por ele. Voltando para casa, Jamie decide estudar português e, no Natal, ao rever a família, larga tudo na última hora para correr atrás de Aurélia. A cena é cômica, porque o escritor não chega a ficar um minuto na casa dos parentes para perceber que deseja ficar com a mulher amada, deixando-os assim que chega de viagem. Ao sair, ele diz que “um homem deve fazer o que deve fazer”. Está certo. Um homem deve procurar a mulher amada.
Jamie voa para Portugal. Declara-se em português para Aurélia, e pede sua mão em casamento. Aurélia responde em inglês, pois também havia estudado a língua do amado.
Para o público brasileiro a cena é interessante, já que nossa língua dispensa as legendas. Mas também é curioso o detalhe de que a mulher de Jamie tem, para nós, o nome do mais famoso dicionário da língua portuguesa no Brasil. Independente disso, o que a história de Aurélia e Jamie nos mostra é que o amor não está no plano das palavras, do intelecto e do entendimento lógico, mas nas profundezas de nossas emoções.
O amor amigo
Um dos personagens que mais serve de “alívio cômico” para a trama é o do roqueiro Billy Mack, um músico cinquentão que tenta retornar às paradas de sucesso com a versão natalina de “Love is all around”, algo que parece impossível no começo.
Billy aparece no filme dando declarações polêmicas em entrevistas no rádio e na TV. Em todas elas, diz bobagens e faz provocações para atrair a atenção do público para sua música, deixando seu empresário Joe desesperado com a péssima publicidade.
Em uma dessas conversas, Billy é perguntado sobre o significado pessoal do Natal. O roqueiro responde que o Natal é para pessoas que têm ao lado alguém que amam, o que não seria o seu caso.
Billy lança um desafio em rede nacional: se ele chegar até o Natal com sua música como a mais tocada nas rádios, ele se apresentará na TV cantando sem roupas. A estratégia dá certo e, na noite de Natal, o vovô do rock celebra a boa notícia com festas e badalação. É até chamado para uma festa na casa de Elton John, mas ele deixa a balada rapidamente para ficar com o empresário Joe, a quem tratou mal durante todas as vezes em que pôde, chamando-o de gordo e feio.
Billy diz que, na festa, teve uma “epifania”, que no caso teria sido a descoberta de que ele teria sim alguém que amava. Não era uma mulher, mas seu amigo e parceiro ao longo de sua longa carreira.
Possui lugar central na psicanálise a noção da libido como um instinto básico para qualquer aspecto da experiência humana. É a libido que leva o homem a se dirigir a qualquer objetivo em busca de qualquer tipo de prazer. Quando Freud falava dos impulsos, ele os diferenciava pelos seus diferentes objetivos tendo em mente a libido como combustível para todas as formas de fruição instintiva. De modo geral, os impulsos sexuais se voltam para a reprodução da espécie, e esse seria seu objetivo central. Porém, Freud via nas amizades a mesma raiz sexual, já que toda forma de afeto nasceria da mesma reserva de libido. Nessas circunstâncias, Freud falava que os impulsos sexuais eram “desviados de seu objetivo”. Ou seja, nos vínculos que constituem amizades, o sexo não está em pauta, mas o próprio afeto já seria um produto da libido. Isso quer dizer que, em essência, uma amizade é um vínculo amoroso com a mesma natureza do que aquela presente numa relação amorosa. Amor e amizade não são de times diferentes.
Billy Mack e Joe, são, enfim, amigos que se amam em sua solidão sem mulheres. A parceria de um com o outro já basta. Tanto é assim que sublimam sua sexualidade abrindo mão da satisfação sexual da relação homem-mulher pela sessão de filme pornô proposta por Billy. Eles não terão uma relação homossexual entre si, mas farão da amizade a sua maneira de amar e serem amados.
O amor silencioso
A amizade também faz parte de uma outra história do filme. Mark e Peter são melhores amigos e o último acaba de se casar. A história mostra que Mark não se dá muito bem com Juliet, a esposa do melhor amigo.
Essa pequena história começa no casamento de Peter e Juliet. Mark, o padrinho, conversa com o amigo minutos antes de a noiva adentrar a igreja. Eles falam da despedida de solteiro, quando o amigo teria levado prostitutas brasileiras que, depois, revelariam ser travestis. Mark garante que aquela teria sido sua última armação para o amigo.
Na verdade, a penúltima. As complicações começam a ocorrer quando o casal retorna da lua-de-mel. Juliet procura Mark para fazer um cópia da gravação do casamento e da festa, já que a dos noivos não havia ficado boa. O rapaz não consegue se esquivar, até que a verdade aparece. O vídeo de Mark, só com imagens da noiva, revela seu segredo: ele ama, e não odeia, a mulher do melhor amigo.
Temos muitas coisas até aqui, a começar pelo nome da moça. Julieta, a amada de Romeu na peça de Shakespeare, vive um amor proibido. O nome Juliet parece enfatizar o conflito de Mark fazendo uma referência sutil à clássica história de amor em que este se enobrece justamente por ser impossível. É o caso de Mark, que procura esconder seu amor pela moça em nome do amigo.
Outra coisa importante é seu hábito de pregar peças com o amigo. Isso mostra a importância, para Mark, do ocultamento da verdade. Para fazer suas surpresas para Peter, ele deve antes ser muito bom em encobrir verdades. Caso contrário, não haveria surpresas. A paixão silenciosa por Juliet demanda uma forte repressão de seus instintos, de modo que pregar surpresas para Peter parece trazer o alívio pela confirmação de que ele consegue, de fato, ludibriar o amigo escondendo seus sentimentos. Ou seja, Mark gosta de se certificar de que não deixará a verdade escapar e ferir Peter.
Em termos de dinamismo psíquico, é fácil ver que Mark reprime seu amor por Juliet e escolhe se proteger de qualquer contato com a moça impondo uma barreira de antipatia por ela. Note que Mark não reprime a idéia relacionada ao instinto, ou seja, ele tem plena consciência de seu amor por ela e também do que deve fazer para evitar que seus sentimentos apareçam. No entanto, ele reprime o impulso do instinto. Podemos supor que ele consiga dirigir parte desses impulsos para outros fins. Freud chamava a isso de sublimação, que é quando a mente se vê obrigada a abrir mão de uma gratificação instintual substituindo-a por outra, em áreas com menos conflitos. Um exemplo claro disso, no caso de Mark, é sua criatividade.
Supõe-se que o ato de criar seja um produto privilegiado da sublimação, já que esta última pressupõe o luto por um objetivo instintivo não alcançado. As criações humanas são recriações do instinto e do objeto para o qual o mesmo se dirige. Ou seja, o amor jamais expresso por Mark precisava virar outra coisa, ou seja, precisava surgir como algo novo. Ele consegue isso ao final da história, usando de sua criatividade para declarar seu amor e, ao mesmo tempo, despedir-se dele. Como não poderia deixar de ser, ele mantém seu estilo silencioso, cheio de segredos: toca a campainha da casa de Juliet e Peter, e para que o amigo não o ouça, expõe cartazes com imagens e dizeres para falar de seu amor por ela. A moça o agradece com um beijo, mas não lhe diz mais nada. Esse é o final feliz possível para o amor que Mark sente, que é em todo parecido com o de Romeu: para ser notável, precisou não dar certo.
O amor redentor
Outra história interessante e bem-feita é a do garoto Sam e de seu padrasto Daniel. Na apresentação desses personagens, verificamos que Daniel acabara de ficar viúvo da mãe de Sam.
Por alguns dias, Sam fica recluso em seu quarto, fechado para o mundo externo. Daniel, que até este momento não parece ter uma relação verdadeira com o garoto, fica preocupado com a situação, mas atribui o retiro de Sam à vivência do luto pela mãe falecida.
Na dupla missão de superar a perda da mulher amada e cuidar de seu enteado, Daniel consegue esclarecer a situação com o garoto em uma conversa com ele. Na verdade, Sam está apaixonado pela garota mais popular de seu colégio e explica que essa é a razão de seu afastamento.
É do garoto a colocação mais verdadeira e madura sobre o amor no filme todo: “amar é uma agonia”. Não há como negar. Amar alguém é um estado de grande vulnerabilidade. Como escreveu Vinícius de Moraes, “são demais os perigos desta vida para quem tem paixão”. Amando, colocamo-nos em situação de dependência, abrimos as comportas para uma torrente de anseios de todos os tipos e, numa linguagem freudiana, passamos a investir no objeto aquilo que antes era reservado ao eu.
Só que, para o caso de Sam, a agonia de que ele fala não é só de estar apaixonado por alguém que não o nota. Num plano inconsciente, a dor que ele sente é pela perda de sua mãe também.
É importante notar que, no começo da história, a reclusão de Sam é entendida como o luto pela mãe. Mais tarde o garoto diz que estava sim pensando na mãe, mas que seu sofrimento é por estar apaixonado. Aqui, o que o filme distingue deve ser por nós equacionado: o apaixonamento de Sam é parte do luto pela sua mãe, e o filme nos dá sólidas indicações nessa direção. Além da coincidência temporal entre os dois acontecimentos (a mãe que morre e o surgimento de uma garota que o deslumbra), temos que o nome da garota é Joanna, o mesmo de sua mãe.
Um recurso básico nos processos mentais normais é o que Freud chamava de deslocamento, que consiste em fundir num só objeto diversas representações de outros objetos e, com elas, anexar àquele objeto alguns significados que pertencem originalmente a outros objetos. Isso é inconsciente e ocorre com freqüência em sonhos, como nas vezes em que uma pessoa que aparece em um sonho se apresenta com características que não são dela, mas de outrem. A utilidade desse processo é suavizar a percepção de algum afeto temido ou proibido usando outras imagens para disfarçá-lo diante de nossa mente consciente.
Por deslocamento, posso viver meu medo de ser castigado por alguém sob a forma de medo de algum animal, criando assim uma fobia. Esse exemplo não é aleatório, mas sim o do caso do Pequeno Hans, um dos clássicos de Freud.
Podemos concluir que Sam desloca para a garota Joanna todo seu amor e sua dor pela mãe Joanna. Seu amor por ela alivia os sentimentos depressivos de luto pela mãe, afinal, é mais fácil sofrer de amor por alguém que ainda é acessível do que sofrer por alguém que já partiu desta vida. Pela Joanna de sua escola ele ainda pode fazer algo.
Mas há um problema: Sam acredita que Joanna nem saiba de sua existência. É aí que ele recorre a Daniel. O padrasto faz o que pode para ajudar o garoto: relembra sua infância, ouve suas angústias, assiste a filmes românticos com ele etc. Há dois elementos importantes aí.
O primeiro diz respeito à situação edípica entre pai e filho. Lá pela idade dos 5 anos, espera-se que um garoto deseje sua mãe e, por isso, rivalize com seu pai na relação com ela. O desfecho dessa disputa deve ter um placar favorável ao pai, mas com saldo positivo para o filho. Ao filho, ao ver que sua mãe já de outro homem, resta buscar se identificar com o pai para conquistar alguém que seja como a mãe. O garoto procura ver o que é que o pai tem que o ajudou a conquistar a mulher tão espetacular que tem. Com isso em mãos, o menino já está encaminhado para a sexualidade masculina adulta.
No filme, Daniel cumpre com a função paterna de ser objeto de identificação para Sam ao nutrir as fantasias do garoto em relação a Joanna. Ele transmite ao garoto tudo o que sabe sobre o que é amar uma Joanna. É claro que Sam já não está mais na idade da eclosão do Complexo de Édipo, mas sim no que Freud chamava de “estágio de latência”, que vai do fim da infância até a adolescência, e é caracterizada por uma suspensão dos instintos em seus objetivos sexuais. O fim do período da latência, com a chegada da puberdade, desencadeia um retorno em massa dos instintos antes reprimidos e sublimados e, com eles, os conflitos de etapas anteriores. Sam revive seu Édipo, e por isso Daniel é tão importante em sua vida agora.
O outro elemento importante da ajuda de Daniel é que ele também precisa elaborar o luto pela mãe de Sam. O filme é sábio em mostrar que Daniel continua sofrendo a ausência da amada apesar da entusiástica e sincera ajuda ao enteado. O que ocorre é que Daniel, ao ajudar Sam a superar seu luto pela mãe perdida através da garota Joanna, também se ajuda fazendo o seu luto pela mulher falecida.
O plano de Sam é aprender tocar bateria para se apresentar no show de Natal de sua escola, onde Joanna faria uma apresentação. O menino acredita que será notado por ela se conseguir uma vaga na banda. O esforço vale a pena, mas o plano não dá certo. Após o show, Joanna dirige-se com sua família para o aeroporto porque irá embarcar para os EUA.
Daniel não permite que Sam desanime nessa altura e o convence a se declarar de última hora, ainda que isso implique em correr para o aeroporto. Daniel confessa que se arrepende por nunca ter falado a sua mulher o quanto a achava perfeita, e espera que Sam não repita o mesmo erro deixando sua Joanna partir sem ao menos dizer a ela o que sente. Nesse ponto, temos a confirmação de que a situação dos dois é muito semelhante. Sam reconhece o esforço do padrasto e brinda o sucesso de sua função paterna chamando-o de pai pela primeira vez.
No filme, Daniel faz inúmeras referências, em tom de piada, a sua admiração pela super modelo Claudia Schiffer. A própria aparece no fim do filme em uma ponta, interpretando a mãe de um aluno da escola de Sam que ele conhece imediatamente após convencer o enteado a se declarar para Joanna. Ou seja, ao ajudar Sam a fazer seu luto, Daniel também se desapega dos fantasmas da falecida esposa e passa a notar outras mulheres.
No final, Sam consegue declarar seu amor. A partida da garota no aeroporto confirma a equação simbólica entre Joanna e a mãe de Sam, já que esta também partira do início do filme. A luta de Sam e Daniel é a de mostrar e revelar por inteiro o amor que se sente pela pessoa amada.
Se o amor é uma agonia, por outro lado ele pode proporcionar a redenção de todos os afetos que doem em quem ama. Para isso, como a história de Sam e Daniel nos mostra, é preciso dizer o que se sente.
O amor interrompido
Temos também a história de Sarah e Karl, que são colegas de trabalho. Sabemos por uma conversa entre Sarah e seu chefe que ela é apaixonada pelo colega há anos. Sarah acredita que seu amor é mantido em segredo, mas o chefe a faz saber que o tal segredo não passa de notícia velha, inclusive para o próprio Karl.
“Pelo bem de todos”, o chefe pede para que a moça se declare logo para o amado. O pedido do chefe é misterioso, já que pressupõe um incômodo geral com a situação de amor não declarado. Embora não pareça, o conselho do chefe acaba sendo para o bem da própria moça. Veremos a seguir a razão.
Tudo na personagem de Sarah leva a crer que se trata de uma mulher solitária. Vive sozinha e seus pais são falecidos. Ao mesmo tempo, grande parte da sua vida é ocupada pelo irmão, que sofre de algum tipo de transtorno mental do tipo psicótico. Ele é interno de uma instituição psiquiátrica, e vive telefonando para Sarah. Sempre que liga, Sarah atende e logo esclarece que está desocupada, “free as a bird”, pronta para atendê-lo, mesmo que isso não seja totalmente verdade. Ela também usa uma expressão específica para se pôr à disposição do irmão, que no caso é “fire away”, algo como o nosso brasileiro “manda bala”, o que denuncia a forma nada tranqüila como ela vive esses contatos do irmão.
Fica claro também que sua solidão é o preço que ela paga pela dedicação exclusiva ao irmão doente. Nada na vida avança com interrupções e pedidos de socorro a todo instante. Tanta frustração parece ser compensada no trabalho, onde permanece até altas horas, fazendo cerão. Talvez essa tenha sido sua forma de tornar a própria vida fértil, na ausência de um companheiro.
Depois do conselho do chefe, Sarah passa a se maquiar e tentar ficar mais bonita e aberta para Karl. Mas a oportunidade vem mesmo na festa de fim de ano da empresa, quando o rapaz a convida para a pista de dança. O DJ escolhe uma canção que, na forma como o filme mostra, parece ser a trilha sonora das fantasias amorosas de Sarah. Refiro-me a “Turn me on”, de Norah Jones, que fala de uma mulher que aguarda ansiosamente a chegada do amado.
Os dois vão para casa juntos e a noite parece que será de amor. Mas em meio ao calor do momento, o celular de Sarah volta a tocar. Ela não consegue deixar de atendê-lo e de se pôr à disposição do irmão, mesmo naquele que foi o momento com o qual tanto havia sonhado. Karl se vê preterido e vai embora. Ele percebe que o coração de Sarah é muito ocupado por um outro tipo de amor: o fraternal.
Quando Sarah fala que está livre para atender todas as necessidades do irmão, é aí que ela se aprisiona à solidão. Nas explicações que dá a Karl, Sara comete um ato falho tipicamente freudiano: fala – e depois corrige – que cuidar de seu irmão é um trabalho. O trabalho de cuidar do irmão foi deixado para ela pelos pais, depois que eles morreram. A dificuldade em organizar a vida amorosa conciliando os problemas do irmão com os seus próprios é reveladora de um conflito interno que a aprisiona na infância. Não importa o quanto ela se dedique à sua feminilidade com danças e maquiagens se ela, emocionalmente, escolher ser somente a filha dos pais que cuida do irmão. Dessa forma, ela nunca gozará inteiramente de ser uma mulher.
Amar custa caro; não amar também. Sarah paga o preço dos dois deixando o amor por Karl e se aprisionando nos cuidados para com o irmão doente. O filme mostra, inclusive, que o irmão chega a tentar agredi-la nas vezes em que ela vai ao hospital. Com idéias delirantes de que as enfermeiras querem matá-lo, o irmão de Sarah vê nela também algum agente maligno. Parece que ele projeta nela alguns fragmentos de perseguidores internos, transformando-a num monstro terrível, apesar de sua total dedicação e de seu incontestável amor.
Em nome do amor pelo irmão, Sarah sacrifica um amor que a faria mulher. Nem há recompensa pelo seu esforço: ela é vista como uma assassina. Nem sempre o amor traz finais felizes.
O amor traído
Além de Mark, Juliet e Peter, existe outro triângulo amoroso no filme. É a história de Harry, diretor da mesma empresa onde trabalham Sarah e Karl, da já comentada história. Harry é casado com Karen, certamente a personagem mais carregada emocionalmente de todo o filme. Enquanto Harry trabalha fora, Karen passa os dias cuidando dos dois filhos do casal. Como é época de Natal, ela prepara fantasias para a encenação da natividade feita pelas crianças na escola.
Harry tem uma secretária nova, uma mulher bem mais jovem chamada Mia. A moça não esconde o interesse pelo chefe e flerta com ele sempre que pode. O patrão não responde aos gracejos de Mia, mas também não os repele. E a situação se mantém assim até as proximidades do Natal.
Mia pede que Harry compre um presente para ela, e ele escolhe um colar. Karen, curiosa, procura nos bolsos do marido o presente misterioso que ele tanto escondia e encontra a jóia. Depois de anos ganhando echarpes de Natal, ela se empolga com o colar, pensando que será este será seu presente. Sua surpresa vem na noite de Natal, quando abre o pacote e descobre que não é o colar, mas um CD da cantora Joni Mitchell. Como ela já havia notado a forma como Mia abordava seu marido, não precisou de muito para perceber a traição e concluir para quem havia sido dado aquele presente tão valioso.
Em uma seqüência anterior, Karen fala para Harry que ama Joni Mitchell, e que “amor verdadeiro dura por toda a vida”. Para Karen, as músicas da cantora canadense a ensinaram a sentir. De fato, a poesia “blueseira” de Joni Mitchell é carregada de emoções. Só que a arte não ensina ninguém a sentir: o que Karen quis dizer é que ela encontrou em Mitchell a porta-voz de suas emoções. Essa consideração é importante para entendermos, do ponto de vista psicológico, a cena que se segue.
Depois de abrir o presente (que está mais para “ausente”), Karen controla seus sentimentos e diz que precisa ir ao banheiro. É a desculpa para chorar sozinha no quarto, secretamente. Como num sonho, o filme é ambíguo nesta cena: não sabemos se a música está de fato tocando no CD player ou se representa o que a personagem está sentindo no momento. Talvez os dois, embora eu torça para a segunda interpretação. Fato é que a música em execução é “Both sides now”, do CD que Karen acabara de ganhar.
Triste, “Both sides now” é uma canção que fala de diferentes formas de olhar para o mundo, entre um antes-feliz e um depois-depressivo. O que torna a canção lindamente madura é o fato de ela poetizar sobre algo difícil para qualquer experiência humana, que é descoberta de um olhar integrador dos vários aspectos de nossas vivências, tanto os bons quanto os maus. A música fala das diferentes maneiras de olhar para o amor, as relações e o próprio mundo, tudo visto pelos “dois lados”. Como diz a canção, agora Karen vê seu amor pelos dois lados: o de dar e o de tirar, o de ganhar e o de perder.
Não se sabe se de fato houve uma traição de Harry. No final, Mia termina sozinha no Natal, brincando com seu colar. No mínimo houve o desejo de Harry de se envolver com a secretária. Uma parte do amor de Harry se dirigiu a outra pessoa, ainda que somente sob a forma de impulso sexual.
Também não descobrimos, com certeza, se Harry e Karen se separam ou continuam juntos. No final, ela e os filhos vão buscá-lo no aeroporto e levá-lo para casa.
O que se sabe é que o amor é um sentimento que também ensina a sofrer.
O amor poderoso
Um dos personagens do filme é ninguém menos que o primeiro-ministro inglês, que acabara de tomar posse do cargo. David conhece Natalie no seu primeiro dia de trabalho como chefe de Estado. Ela é parte da equipe de serviços gerais de seu gabinete.
Quando Natalie é apresentada a David, ela fica nervosa e quebra o protocolo, chamando o primeiro-ministro pelo nome, e não pelo circunstancial “sir”. Depois disso, a moça se descontrola e começa a falar espontaneamente, usando palavriados como “shit”, “piss” e “fuck”. David responde na mesma moeda, brincando com a situação.
David se apaixona por Natalie nesse mesmo instante, como se fosse “amor à primeira vista”. A crença romântica de que uma pessoa pode começar a amar outra no instante em que a vê pela primeira vez merece ser testada pela realidade. Afinal, se o amor faz vínculos carregados de objetivos e necessidades sexuais e afetivas, como ele pode surgir mágica e rapidamente no instante de um olhar?
Pois é. Parece que há uma sabedoria intuitiva latente na fantasia do amor à primeira vista. Penso no conceito psicanalítico do narcisismo.
O mito de Narciso nos fala de um rapaz muito belo que se apaixona pela própria imagem. Tanto que, ao ver seu reflexo na superfície de um lago, morre afagado, tentando possuí-la. Esse mito empresta ao saber popular o termo “narcisista” para designar aquelas pessoas que, muito vaidosas, dedicam-se a horas diante do espelho.
Já Freud aproveitou o mito para descrever uma série de processos importantes para o desenvolvimento mental – normal e patológico – em estágios iniciais do ciclo vital. Na psicanálise, o narcisismo diz respeito à capacidade do indivíduo de investir libido em si mesmo.
Em termos descritivos, o narcisismo seria como uma carga de amor que o sujeito recebe de sua mãe, sobretudo de seu olhar, no período em que ainda é um bebê. É essa reserva de amor por si mesmo que faz o indivíduo crer que é ou pode vir a ser amado pelos outros, assim como ele já se sentiu amado só por ser visto por sua mãe, quando era bebê.
Esse mecanismo, então, está contido numa relação de amor em que ser visto pelo outro é crucial, dado que o olhar do outro é capaz de fazer o sujeito sentir-se reconhecido. Por isso, pessoas mal resolvidas com seu narcisismo são aquelas que mais demandam o olhar dos outros. A falta desse olhar é vivido como algo próximo da não-existência. Se não tenho leitores para este texto, então não sou comentarista de cinema; se não tenho pacientes, então não sou psicólogo; se meus filhos não gostam de mim, então não sou pai.
Talvez o mito do amor à primeira vista seja tão popular não por ser sobre um amor que surge magicamente (o que não é possível), mas por nos falar intuitivamente de um amor que surge junto a um olhar, tal qual foi o primeiro amor que nos revestiu de carinho: o da mãe.
Se minha associação entre o amor à primeira vista e o narcisismo está correta, podemos concluir que David viu em Natalie uma pessoa que pudesse enxergá-lo de uma maneira especial, mais próxima do que ele de fato é e que, por isso, pudesse lhe assegurar de seu lado “cidadão comum”, mesmo ele sendo tão poderoso como primeiro-ministro. Assim, os temos chulos e espontâneos de Natalie mais agradaram David do que o desconcertam.
Aliás, a informalidade de Natalie nos dá a idéia da força dos seus impulsos naquele momento (uma vez que os termos utilizados por ela eram todos relacionados a zonas erógenas), o que nos permite supor que a presença do primeiro-ministro era sentida por ela como sendo eroticamente carregada.
Depois disso, David procura se aproximar de Natalie. Deseja saber mais sobre sua vida particular. Até então, ela apenas aparecia para lhe servir chá, café e biscoitos.
Podemos inferir que Natalie consegue seduzir David fazendo com que ele acesse novamente fantasias primitivas ligadas à nutrição. No início da vida, o bebê não compreende que sua mãe é uma pessoa completa, com vida independente. Nesse momento, ele só se relaciona com o seio da mãe, que será vivido como um objeto pleno de satisfação tanto quanto esteja disponível para servir-lhe.
Na história, Natalie só aparece para David como uma versão adulta da representação primitiva de um seio farto e nutridor: traz comida exatamente na hora em que ele quer e, junto com o alimento, sua presença e seus olhares.
Enquanto Natalie é para David esse seio nutridor, não há um relacionamento verdadeiro entre os dois, assim como o bebê ainda não enxerga a mãe como uma pessoa inteira. A coisa só muda depois, com a chegada do presidente norte-americano em visita oficial. O presidente é apresentado como um mulherengo e logo se interessa por Natalie.
Nas negociações entre os dois governos, os ingleses cedem em seus interesses por decisão de David, que não quer parecer uma “criança malcriada” diante dos olhos do mundo. Os negócios são favoráveis aos americanos.
No fim do dia, no entanto, o primeiro-ministro e o presidente conversam reservadamente. David vai até uma outra sala para buscar um certo documento para mostrar ao colega. Ele diz: “quero lhe mostrar algo que está muito perto do meu coração”. Logo depois, Natalie entra na sala e nos segundos em que David se ausenta, o presidente tenta beijar Natalie. David flagra o momento e com isso o interrompe.
Em seguida vem a coletiva com a imprensa, e a resposta do primeiro-ministro. Logo após o presidente elogiar a hospitalidade dos ingleses e a relação entre os dois países, David se revela, tornando-se agressivo com o governante americano e retomando as negociações nas quais havia cedido nos interesses britânicos. É importante notar que quando David volta atrás e decide agir como uma “criança malcriada”, na verdade ele age como homem, respeitando os interesses nacionais que o levaram a ocupar o cargo que possui. Mas é claro que, no contexto do filme, sua motivação é outra: ele despertara o homem que estava dentro de si ao perceber que sua amada Natalie havia sido vista por um outro como uma mulher, e não como uma mãe, num modelo infantil de amor, tal qual o que fora descrito anteriormente.
Na verdade, a seqüência em que David endurece nas relações com os americanos é o momento mais romântico do filme. É até irônico que num filme de amor, o diálogo mais romântico seja aquele que ocorre num cenário político. Hoje, é impensável que uma cena dessas ocorra de verdade nas relações de qualquer país com os EUA.
A transformação de David é celebrada pela nação. Mas muito mais do que poder e prestígio, David adquire um novo olhar para certas coisas. Agora, Natalie aparece aos seus olhos como uma mulher, e não só como aquele seio provedor de leite e biscoitos. Amadurecer implica em dedicar-se à ação: a infância acaba com sucessivos desmames, ou seja, não são as coisas que vêm até nós para nos satisfazer; somos nós que devemos fazer vingar nossos desejos.
Num primeiro momento, David foge da responsabilidade. Ele remaneja Natalie dentro de seu gabinete. É provável que ele tenha percebido que sua paixão por ela pudesse atrapalhar seu julgamento como governante, assim como acontecera nas negociações com os EUA.
Na noite de Natal, porém, o primeiro-ministro decide procurar Natalie após ler o cartão natalino que ela lhe enviara. Ele sai com seu motorista e se dirige para a rua onde ela mora, mas sem saber qual é o número de sua residência. Isso o força a bater de porta em porta, perguntando por Natalie, até encontrá-la.
Há um erro lógico nesse momento. Como primeiro-ministro, David facilmente teria acesso ao endereço completo de Natalie, bastando para isso fazer algumas poucas ligações. No entanto, o personagem trilha o caminho mais difícil. Aliás, amor e lógica não são afins, fato que o filme explora muito bem.
O que essa informação nos sugere é que não é o David primeiro-ministro que procura Natalie, assim como não foi o David primeiro-ministro que resolveu endurecer com os EUA. Também não é o David primeiro-ministro que Natalie deseja, o que fica evidente na ocasião em que eles se conhecem. O que David faz é ser ele mesmo. Fica mais fácil procurar pelo amor conhecendo bem a si mesmo. Você pode não saber onde encontrar essa pessoa, mas pelo menos sabe o que quer.
Simplesmente o fim
Ao fim do filme, com todos os desfechos apresentados, felizes ou tristes, ouve-se o clássico dos Beach Boys, “God only knows”, sucesso dos anos 60 que diz: “só Deus sabe o que seria de mim sem você”. Uma ode ao amor.
Voltamos ao aeroporto onde tudo começou e os personagens se reencontram. Não se sabe se o amor está em toda parte, como o filme sugere. O que as histórias parecem confirmar, cada uma a seu jeito, é que, de uma maneira mais realista, o amor não está em toda parte. Mas talvez possa estar em toda forma de desejar algo, e de se arriscar nesse desejo para ver se, no final, a história dessa busca rende um filme, ou um conto, de amor.






